Brasil combate HIV com pílula preventiva

Em um esforço para frear um aumento acentuado nos casos de infecção com HIV entre jovens, o Brasil começou este mês a disponibilizar um medicamento que pode prevenir a infecção entre pessoas consideradas de alto risco.

O país é o primeiro da América Latina e um dos primeiros do mundo em desenvolvimento a adotar o comprimido Truvada, dentro de um programa conhecido como PrEP (profilaxia pré-exposição), como parte integral de sua política de saúde preventiva.

Tomado diariamente, o comprimido azul reduz drasticamente o risco de contrair o vírus. Na fase inaugural do programa, ele será disponibilizado gratuitamente a pessoas de grupos de risco em 35 centros de saúde pública de 22 cidades do país.

O Ministério da Saúde está pagando à Gilead Sciences, fabricante americana do medicamento, cerca de US$ 0,75 a dose. Nos EUA, os comprimidos suficientes para um mês saem por mais de US$ 1.600.

O Truvada está sendo disponibilizado em um momento crucial no Brasil. As autoridades estão especialmente alarmadas com o aumento dos casos da doença entre homens jovens e outros grupos considerados de alto risco.

Entre 2006 e 2015, o número de casos de Aids em homens de 15 a 19 anos quase triplicou, chegando a 6,9 a cada 100 mil pessoas. Entre os homens de 20 a 24 anos, o índice quase dobrou, chegando a 33,1 a cada 100 mil pessoas, segundo a Unaids, agência da ONU que coordena a política de prevenção do HIV em todo o mundo.

Cerca de 48 mil novos casos de HIV foram anunciados no Brasil em 2016, e mais ou menos 14 mil mortes foram atribuídas à Aids. Os casos de transmissão do vírus de mãe para filho tiveram uma redução importante, mas, segundo a Unaids, um em cada dez homens brasileiros que fazem sexo com homens tem HIV.

RISCO

A PrEP está sendo oferecido a prostitutas, transgêneros, homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas e pessoas em relacionamentos com parceiros soropositivos.

O Brasil se destaca há anos por sua resposta à epidemia de HIV. Na década de 1990 o país desafiou as empresas farmacêuticas, produzindo versões genéricas de medicamentos antirretrovirais caros, numa iniciativa que reduziu globalmente os preços.

O governo brasileiro compra e distribui mais camisinhas que qualquer outro país e em 2013 começou a oferecer terapia gratuita com antirretrovirais a todos que buscam atendimento.

Os proponentes da PrEP dizem que a experiência brasileira vai demonstrar as vantagens econômicas de investir na prevenção. “Com o acréscimo da PrEP, o Brasil está usando todas as estratégias que recomendamos”, disse Georgiana Braga-Orillard, diretora da Unaids Brasil. “Essa é uma operação de grande escala. O Brasil pode virar um exemplo para toda a região, mostrando que precisamos de uma abordagem integrada.”

Desde que a FDA (a agência dos EUA que regula medicamentos e alimentos) aprovou o Truvada como droga de prevenção do HIV, em 2012, vários países vêm tentando disponibilizar o medicamento a preços acessíveis a pessoas em risco de contrair o HIV.

No primeiro ano do programa brasileiro, o Ministério da Saúde gastou US$ 2,7 milhões para adquirir 3,6 milhões de comprimidos. Adele Benzaken, diretora do Departamento de Aids do Ministério da Saúde, diz que o país prevê gastar menos com o atendimento preventivo em 2018, quando versões genéricas do Truvada chegarem ao mercado.

Ela revelou que duas empresas farmacêuticas, incluindo a Mylan, pediram à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a aprovação de versões genéricas do Truvada.

As pessoas estão encarando o HIV com menos preocupação, e isso levou à queda no uso de camisinhas, disse José Valdez Madruga, da Secretaria de Saúde de São Paulo. Ele foi um dos coordenadores de um ensaio da PrEP realizado no Brasil antes da implementação do protocolo. O Truvada oferece uma proteção adicional.

“Com a PrEP, a decisão fica nas mãos de uma pessoa”, disse Madruga, diretor do centro de Aids e doenças sexualmente transmissíveis da Secretaria. “Não é preciso a concordância do outro parceiro, como é o caso com a camisinha.”

Em uma pesquisa feita no Brasil pelo aplicativo de namoro gay Hornet e a Unaids, 36% dos entrevistados disseram que provavelmente usariam a PrEP se estivesse disponível.

Os críticos da PrEP dizem que ela incentiva o sexo sem camisinha, levando ao aumento de outras doenças sexualmente transmissíveis.

Marcio Pierezan, 29, que participou do ensaio clínico, acha que esses receios não têm base. Ele começou a tomar o Truvada há dois anos. “Era um momento quando quatro amigos íntimos meus tinham tido resultado positivo no exame de HIV e eu estava num relacionamento aberto com uma pessoa que tinha tido resultado positivo. Eu vivia com medo constante de ser o próximo, apesar de usar camisinha.”

“O comprimido virou parte de minha rotina”, diz Pierezan. “Tomo com meu café pela manhã. É um alívio enorme para mim, meus amigos, minha mãe!”

Piero Mori, 34, é gay e diz que nunca gostou de usar camisinha, razão pela qual novos encontros sexuais frequentemente lhe causavam semanas de ansiedade enquanto ele repetia os exames de HIV. “A camisinha sempre será a proteção mais completa”, ele diz. “Mas para quem não pode ou não quer usar, a PrEP é uma salvação.”

A nova ferramenta no esforço do Brasil para conter o alastramento do HIV está sendo lançada no momento em que insuficiências orçamentárias em alguns Estados vêm levando à falta de remédios e profissionais médicos, dificultando o funcionamento de vários hospitais.

Mesmo assim, as autoridades de saúde esperam que a PrEP tenha grande impacto e ajude a manter as pessoas saudáveis. Para promover o protocolo, elas pensam em formar parcerias com personalidades do YouTube e anunciar em aplicativos de namoro online.

Jornalista: Shasta Darlington (Folha de S.Paulo)

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